auto retrato

Acredito que o auto-retrato se insira em um ponto de contato entre interno e externo, entre eu e outro. Nessa superfície, onde o externo e o interno se deslocam. Se pode pensar, a princípio, que o interno seria o lugar do artista e o externo de seu retrato, mas não é assim. Esses lugares não estão fixados. O objeto, o retrato, imagem do artista, torna-se outro,um fora. Um ali se opondo ao aqui ocupado pelo artista. Porém esses lugares se transformam. O retratado é também um rosto. E este rosto vê. Olha para fora, agora o fora do retrato, e vê o artista. Há um jogo de tensão entre eles, o olhar sustenta este jogo. O olhar do outro e o olhar do eu. Estes também cambiantes, deslocados. Um assumindo cada lugar e expulsando o outro incessantemente.
Quando falo de auto retrato, sei que ecoam imagens de Van Gogh, Rembrandt, Cindy Sherman e tantos outros artista que admiro ou não. Reconheço que é preciso um entendimento e um conhecimento da história da arte para que seja possível uma inserção na própria arte. Porém aqui, neste momento solitário do texto, do processo, me coloco apenas com essa tarefa: produzir um auto retrato.
No início desse percurso, imbuída dessa dificuldade, que também me atrai, de representação, comecei meu trabalho de auto retrato. Trago essa dicotomia, entre eu e outro, para meu corpo. Como Cindy Sherman, me visto de outros, me transvisto. Sou eu e isto. Aqui e ali. Diferentemente da norte-americana, os meus outros não estão no centro da cena, mas à margem. São figuras excretadas.Uma mulher que apanha chorando sozinha, uma putinha japonesa, uma empregada que se tornou um objeto da cozinha de uma casa de classe média…e outros ainda que virão. Outros excluídos, outros homens infames.
Porém ainda me deparo com entraves, continuo revendo as escolhas que se apresentam no processo do trabalho. Se penso no auto retrato como algo que se inscreve neste espaço de entre-corpos, nesse toque das superfícies, talvez o tranvestimento total em outro precise de um passo atrás. Um passo em suspenso.
Foi pesquisando para mais uma de minhas fotografias, mais uma dessas figuras infames, que me deparei com uma imagem, antes, um estudo para uma imagem que é já uma imagem.

Se pode ver acima os diferentes modos como lido com essas questões através da fotografia. E a seguir links dos trabalhos em vídeos.

vimeo.com/18821242