Guardo os retratos dos desaparecidos do regime militar no Brasil para tentar evidenciar um lugar de suspensão. As pessoas desaparecidas permanecem como fantasmas, como uma narrativa que não se fecha. É necessário inscrever, no discurso público, a história desses homens e mulheres. Esta é a questão que mobiliza o trabalho. Abaixo segue a descrição de sua montagem.
Em uma parede branca é projetada uma sequência de fotografias de rostos. Essas fotografias estão em preto e branco e com as cores invertidas, ou seja negativadas, o que na fotografia aparece preto é branco e vice versa. Cada foto fica exposta por um minuto, após esse minuto, a imagem some e resta apenas a tela branca. Até outra imagem, outro rosto, surgir e assim por diante. Quando um deles em negativo some, através de um processo de “pós imagem” o espectador vê um vulto do rosto como estaria na foto revelada. Esse “vulto” não está na tela, é produzido pelo próprio espectador.
A pós imagem, ou permanência retiniana, se dá devido a uma operação em nosso córtex visual. O cérebro tende a compensar o fato de ser exposto a ondas luz, que fazem a cor, com suas ondas opostas. Deste modo, o que vemos por um tempo como uma mancha preta, compensamos com uma mancha branca ao olharmos para uma superfície neutra. Por isso as fotos, vistas em sua forma negativa, surgem como sua forma positiva. Elas se inscrevem na memória de quem vê, elas retornam, como um vulto, um espectro. Esse espectro não está na tela, é produzido por nosso olhar, por nosso aparato físico e psíquico. Nosso corpo é seu suporte. Esta é uma operação que se dá no corpo, mas é externalizada. O corpo juntamente com a visão sustenta e produz algo fora de si. E esse algo vem a ser aquilo que retorna. Aquilo que foi por nossa lei, por nossos arcontes recalcado: os desaparecidos, os arquivos sobre aqueles que foram presos e cujas histórias não se sabe o fim. Esse retorno é também inscrição: aquelas figuras se inscreveram em nós, os que vemos. Como se inscreveram, na memória do país, os anos de terror de um regime autoritário. Embora se diga: aqui é o país onde se esquece, esse esquecido retorna, ronda como um fantasma. Nos olha, nós, aqueles que víamos também somos vistos por seus olhos de espectros. Seu olhar nos constrange. O que fazermos diante dele? Podemos, talvez, em memória a nossos mortos que nos rondam em silêncio, conhecer, enfim, o esquecimento.

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